Meu testamento.

Um dia, aquele que menos espera, estarei deitado, imóvel, quase sem calor, com minhas energias esgotadas, talvez num leito hospitalar a ouvir de forma bem distante, algum médico dizer que meu cérebro deixou de funcionar, que não há mais nada fazer… e assim minha vida se extinguiu.
Quando isso estiver acontecendo, não tentem instalar a vida artificial em meu corpo através de alguma máquina, não deixem chamar aquele leito de “leito de morte” mas sim, que seja chamado de “leito de vida”, pois ali estará alguém que vivenciou a experiência terrena quase em sua plenitude.
Aquele corpo inativo, aqueles órgãos se definhando, aquelas células se desintegrando estiveram presentes nas emoções, nos momento de alegria, nos instantes de paixão, de sofrimento, de dor e de sonhos, em meio as coisas maravilhosas que são proporcionadas pela própria vida.
Aproveitem aquele momento e tirem os meus olhos e doem para aquele ser que não conheceu a beleza das cores e o brilho do sol… doem aqueles olhos que já chorou ao ver o rosto lindo de uma criança, se emocionou com o brilho nos olhos de uma mulher apaixonada e que também se lamentou ao ver alguém que não podia ver.
Que meu corpo seja útil para ajudar alguém a levar uma vida mais feliz.
Doutores, transplantem os meus órgãos para aqueles que sofrem a contingência de não ter um corpo sadio e ficam na dependência de seres e de máquinas. Eles sentirão a felicidade de se ter saúde, de se ter vigor e de ser dinâmico.
Retirem meus músculos e coloquem naquela criança que não conheceu a alegria de correr, de pular, de cair de uma árvore, de caminhar sobre a grama molhada e de chutar tudo aquilo que aparece pela frente.
Você que é cientista explore cada canto do meu celebro, retirem aquelas células importantes e deixe-nas em alguém que não ouve para que possa perceber o barulho da chuva de encontro à vidraça… o som da natureza… dos pássaros ao amanhecer… de uma cachoeira. Que ele possa sentir a harmonia das notas musicais através de uma melodia ou de uma sinfonia.
Se nada de mim puder ser aproveitado, queime meus restos mortais e espalhem as cinzas ao vento para ajudar as flores a brotar.
Se tiverem que enterrar algo de mim, que sejam meus erros, minhas fraquezas e todo mal que inconscientemente tenha causado aos meus semelhantes.
Se tiverem que esquecer de mim, esqueçam as minhas mágoas, meus ressentimentos, minhas frustrações e minhas decepções.
Se quiserem por acaso lembrar de mim, façam-no como uma ação fraterna acompanhada de um sorriso e da palavra “amigo” dirigida à alguém que precisa de você.
Se tiverem que chorar, que não seja pela minha morte, pois ali se encontram alguém cheio de vida, realizado e agradecido por tudo que este planeta lhe ofereceu, e que se fizerem tudo o que pedi, estarei vivo para sempre.

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